Teatro

A trajetória do artista plástico Geraldo Lacerdine no teatro começou em 2002, quando foi aprovado para o curso de mambembe no centro cultural Galpão Cine Horto, do famoso grupo de teatro mineiro “Galpão”. O fascínio pelas cores e formas na pintura levou o artista ao universo maravilhoso e novo que o teatro descortinava. Técnicas de palco, maquiagens, malabarismos, improvisos e expressão corporal fizeram-no sonhar com uma nova habilidade artística que despontava vigorosamente. Os estudos no centro cultural duraram três anos e ampliaram tanto os horizontes a ponto de Lacerdine afirmar:

“aprendi a doçura, o humor e a leveza da abordagem do teatro e, mesmo quando se faz necessário falar de coisas tristes, faço com a mesma leveza internalizada em mim”.

Concomitante ao teatro, o artista estava imerso nos estudos de filosofia, que também abririam novas possibilidades.

“Com ambas as experiências, já se engendrava uma perspectiva artística em mim, que iria, no futuro, determinar todo o meu fazer objetivo na arte.”

O INÍCIO

Percebendo que a aprendizagem adquirida pelas artes e pela filosofia deveria ser passada adiante de alguma forma, Geraldo fundou um grupo de reflexão teatral e filosófica na periferia de Belo Horizonte. Nesse grupo, trabalhava as técnicas adquiridas do Galpão Cine Horto com um forte respaldo da reflexão social e filosófica sobre a realidade. Nesse tempo, foram montadas três apresentações dirigidas pelo artista para o auditório Dom Luciano Mendes, na Faculdade de Filosofia e Teologia – FAJE, em Belo Horizonte.

Arritmia – expressão corporal que mostrava o contraponto do indivíduo em uma sociedade injusta.

Eu perdido no mundo – relatos de adolescentes, contando suas vidas em meio ao caos da violência de seus bairros.

Fragmentos – pedacinhos de histórias pessoais que se encontravam em uma grande trama da vida. 

A MUDANÇA

Consequentemente, depois de ter passado um tempo fora do Brasil, bebendo de outras fontes, culturas e tradições, chego à encantadora cidade de São Paulo, em 2010, e a riqueza cultural dessa metrópole potencializará o meu fazer artístico, tanto na pintura quanto no teatro. Nessas terras, pude roteirizar, dirigir e atuar em quatro espetáculos teatrais, com textos do jesuíta, poeta e escritor André Araújo (Doutor em Estudos Literários pela UFMG). Abrindo, por essas vias, muitas discussões ético-estéticas e de intervenção cultural nesse imenso mosaico artístico que compõe a capital paulistana.

O Menino e o Mistério

Como primeiro texto que faria parte da proposta do “Natal Iluminado”, na cidade de São Paulo, “O Menino e o Mistério” – concebido como Auto de Natal da Paróquia São Luís, em 2015 – movimentou a programação cultural da Avenida Paulista naquele ano. O espetáculo abriu um horizonte poético e imaginário em franco diálogo com a literatura e as outras artes. Deu vida, assim, de forma leve e poética, à perspectiva teológica do Mistério da Encarnação. Além disso, viu-se claramente que, ao ser proferida e encarnar-se, a Palavra se faz poesia e anima toda a obra da Criação. Nesse sentido, “O Menino e o Mistério” quis evidenciar como as criaturas e tudo o que existe vive e é habitado pela presença mística desse Mistério que se faz Menino. Dessa maneira, o teatro, de mãos dadas com a poesia, a música e a dança, foi enriquecido pela projeção de inúmeras imagens da obra da Criação, nas paredes da Igreja São Luís, numa releitura do livro do Gênesis em estreita relação e consonância com as narrativas bíblicas do Evangelho, atualizando, em todo tempo e lugar, a vinda de Cristo ao mundo. O Menino agradece, assim, a infinidade dos Dons colocados à disposição do homem e bendiz o Mistério que se revela, até os dias de hoje e em toda parte, em tudo o que vive e respira.

O Menino é irmão do Homem

Na segunda edição do Auto de Natal, no ano de 2016, a proposta estética e teatral quis tratar, mais diretamente, da figura de uma criança, na perspectiva de uma adoção filial. Protagonista e irmão do gênero humano e de toda a obra da Criação, o Menino revela-se irmão do Homem, ser humano continuamente criado, a partir da adoção filial do homem pelo Pai, em seu profundo Mistério de Amor. O Menino é, assim, a um só tempo, a pureza e a ingenuidade do ser humano vulnerável, em quem Deus confia plenamente e se entrega, e, por outro lado, a divindade assumida humanamente, que quer relacionar-se e, por isso, se encarna no meio do mundo. Criatura humana, em profunda relação amorosa com o Filho do Homem, o Menino descobre-se habitado por esse Amor que dá sentido a toda sua existência. No mesmo movimento, o Filho do Homem se revela e aponta para o Mistério do ser humano, amado e assumido como filho e pessoa, princípio e fundamento de toda a História da Salvação.

O Mendigo e a Cotovia

O ano de 2017 propõe um olhar mais alargado sobre o Mistério da Criação e da Encarnação, em consonância com o sentido profundo da existência humana tão dilacerada e marcada pelo sofrimento e pela exclusão. No entanto, como não há nenhuma realidade que a presença transcendente do Criador não possa tocar e transformá-la desde dentro, será esta mesma experiência humana, decaída e ferida de morte pela sociedade e pelos reveses da vida, que vai dar lugar e abrir, pouco a pouco, espaço para a Salvação acontecer. É assim que os testemunhos de uma prostituta e de um Mendigo vão mesclar-se à voz de um pássaro encantado – uma Cotovia – que vai devolver coração e sentido à vida das personagens e de todos os que se deixarem provocar pela aventura humana e espiritual que se acende a todo instante e que acontece a toda hora. Porque a Vida se revela aí nesses lugares, a despeito das crises atuais e da náusea do cotidiano, afirmando-se, veementemente, como o sentido último e primeiro da existência, numa resposta sempre misericordiosa e reconciliada de um Bem mais universal que nos envolve a todos, sem fazer qualquer distinção.

A Vila do Sino

“A Vila do Sino” nasceu de uma vontade partilhada de fazer dialogar a arte em suas múltiplas formas e sensibilidades para contar a vida de um lugar e de um povo. Por isso, esse vilarejo conta com outros possíveis desdobramentos ético-estéticos e culturais (sarau, música, teatro, dança, exposição etc). Nesse sentido, compareceram já, para dar contornos a este sonho, a poesia e a pintura. Ambas, valendo-se de seu potencial inventivo, deram-se as mãos para gerar os vários personagens que foram sendo convocados para evocar a vida dessa gente anunciada no cotidiano mais banal e corriqueiro de uma vila do interior do Brasil.

 

“A Vila do Sino” é, assim, um desses rincões que não contém nada de mais, senão o que guarda em si e partilha: literatura, história e memória cultural. Histórias de uma cultura correndo o risco de se perder no ritmo alucinado dos nossos dias em que as coisas se pulverizam pelo excesso do mesmo e pela indiferença. Memórias afetivas profundamente marcadas e ritmadas pela tessitura de vozes narrativas que não querem deixar de apanhar rumores vindos de várias direções, para contar e juntar o que se dispersou no tempo e no espaço. Literatura que, no encontro com o registro mágico de um traço de tinta contra a tela branca, busca o testemunho de uma identidade que conflui no mesmo emaranhado junto do compasso rouco de uma voz mais forte que se personifica: um sino que regula tudo, enquanto toca e anuncia que em toda parte e o tempo todo “Tem Deus!”

 

“A Vila do Sino” ressoa essa verdade, e esse eco se faz sentir por todo canto. Do campanário, o sino marca as horas, as festas e o luto, enquanto atesta que mesmo o elemento mais trivial encontra-se habitado por uma presença absolutamente transcendente. E esta força vital preenche as lacunas. O tempo escoa de um modo diferente. A vida e a morte se revezam como em todo lado, e as pessoas sabem que precisam desse registro. “Tem Deus!” na vida desses homens e mulheres, crianças, jovens e adultos. “Tem Deus!” na natureza, no trabalho, na pureza da infância e nas descobertas da adolescência. “Tem Deus!” indo e voltando onde a resposta a essa alegria não parecia mais possível. Assim, pura e simplesmente: “Tem Deus!” sem precisar mais de muita explicação…