Cândida

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Vila do Sino

Cândida

Dimensões: 0,60X0,80
Técnica: Acrílica sobre tela

São seis horas na manhã sem dúvidas.
Lá vai dona Cândida descendo o morro.
O passo é o mesmo, a certeza é nova:
vai abrir a escola, vai varrer as salas,
vai limpar carteiras e apagar os quadros,
vai fazer café.
No sabor dessa rotina,
vai matar a fome.
A fila da sopa ou do arroz temperado
é sempre a mesma:
não tem fim!
Só o dinheiro é que era curto.
Mãe de muitos, tia de uns tantos,
ficara viúva muito cedo
e completava o que faltava com beijinhos,
casadinhos, espera marido e olho de sogra…
Porém, sobrava carinho,
de quem pouco lia
e escrevia “para o gasto”,
como ela mesma dizia.
Saudade da pizza, do pastel, do bolo e do pudim.
A gente sabe como é,
a vida não regateia, tia Cândida,
até o doce carrega um amargo no fim.
“Sei mais eu, menino,
o que a vida tem de ensino:
cabeça boa é barriga cheia,
faz letra bonita,
que o resto é água com açúcar!”
É verdade, como pude esquecer:
“tia, tô com dor de cabeça, me dá remédio?!”
“Ô, meu fi, tomou café?”
“Que que é hoje?”
“Arroz com feijão e ovo”.
“Hmm, vai custar pra passar…”
“Vai nada, chega aqui!”
Nunca se aprendeu tanto,
como nas lições da cantina,
e não tinha nada pra complicar,
não tinha remédio mesmo, não tinha aspirina.
Era um punhado de arroz com feijão e ovo,
uma coisinha à toa,
que hoje relembro e me comovo:
o suficiente pra uma barriga cheia e uma cabeça boa…