Alice

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Vila do Sino

Alice

Dimensões: 0,90X1,05
Técnica: Acrílica sobre tela

Mais um ano começava.
Alice, como sempre, preocupada:
“Vão me dar de novo aquelas sementes…”
Isso de dizer “aquelas sementes” a fez pensar.
Ela nunca pudera entender
a frase que lera certa vez:
“Ai de nós se, por nossa culpa,
semente morrer semente…”
Ela conhecia o que dizia o Evangelho,
também não ignorava a vida no campo,
o trato da terra, da semente e os adubos.
Mas é que todo ano ela recebia sementes e…
zelava delas, cuidava com carinho,
plantava, regava e esperava pelos frutos
que não vinham.
Talvez ela tivesse de ler mais,
aprofundar coisas, ser mais paciente.
Ela que já tinha se vestido de bruxa,
de fada, de lobo, de princesa,
de bonequinha preta… tinha aprendido a cantar,
a tocar e a dançar
para despertar “aquelas sementes”.
E o sono era mais forte,
e a violência, mais dura,
e a fome, mais cruel
a cada dia e com todo mundo.
Alice não vivia no país das maravilhas.
Ela sabia e julgava querer pouco até da vida.
Um menino que soletrasse uma palavra,
uma menina que, de repente, arriscasse
um colorido e um contorno suave,
de um sonho diferente,
de uma vida diferente.
As crianças teriam seu tempo,
não aprenderiam com ela,
era difícil admitir:
“Eu plantei, Apolo regou”
e aceitar resignada:
“quem deu o crescimento foi Deus…”
Hoje, diante daqueles olhinhos ávidos, Alice estremeceu.
Como num flash, ela despertou
quando uma criança pediu:
“Tia, toca aquela música…”
E outra: “Ensina a gente a dançar!”
E outra ainda: “Vai ter fada e bruxa?”
Sorriu, pasmou e se deu conta:
“Alice, esta semente é você!”